CI dia

Aconteceu durante a viagem de volta do nosso primeiro fim de semana juntos. Luca dirigia, as dorsais lindas e coloridas dos Apeninos impressas nos nossos olhares. Eu não queria voltar para casa, aquela casa pequenina, onde eu morava sozinha. Queria já ficar com ele por todo o tempo, toda a eternidade, se possível.

E daí ele me perguntou -Quer comer alguma coisa, antes de voltar? Gostaria te monstrar um lugar, Amatrice, a cidade onde foi inventada a “pasta all’amatriciana”. 

Aceitei sem pensar. Naquela pergunta, percebi o seu desejo, convivido, de rubar ao tempo uma outra hora pra ficar comigo. 

Hoje, acordei e descubri que a cidade de Amatrice não existe mais, que está destruida pelo terrível terremoto que atingiu a Itália. Não tem uma explicação por isso. Só uma grande dor e o pequeno conforto da  minha lembrança, de um agosto de alguns anos atrás, onde a destruição, a morte e a tragedia ficavam longe e imprevisíveis pelo meu coração que agora chora.

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C dia

Cem dias se foram. Cem dias felizes, como diz o título desse blog, ou quasi, porque na verdade não foram todos felizes. Mas quem gostaria uma vida somente feliz? A felicidade, para ser percebida, precisa ser como uma oasi depois de uma longa aridez. Se não, seria chata, comun…não seria felicidade. 

A minha felicidade é um desafio que tento ganhar em cada minuto de cada dia. As vezes, a tristeza me derrota. As vezes, acho que não vou conseguir. As vezes, não me aceito e, juntos comigo, não aceito os meus problemas. Mas qual seria a alternativa? É simplex. A alternativa não existe. Então, tenho que viver, enfrentar, aguentar firme. E, na frente de obstaculos altos como muros, procurar um jeito de supera-los. 

Cada problema tem uma soluçao. E, embora que pareça tão grande, observado de uma outra perspectiva, fica pequeno. 

Nesse cem dias, eu enfrentei a realidade de ter uma “coisa” maligna emplantada perto do meu olho; enfrentei a tristeza das consultas oncológicas, o perigo de uma enésima cirurgia, a incerteza da cada amanhã, a solidão em saber que ninguem, além de mim mesma, pode me trazer força. Mas ainda estou aqui. E, mesmo sabendo que a minha vida não continuará facil, aprendi que as coisas benévolas são muito mais numerosas de todas as imperfeições ruins do meu mundo. E vou continuar procura-las.

XCI dia

Perdi dois dias felizes. Não mantive fé nesse empenho. Mas por dois dias fiquei cega.

Fiz a cirurgia. Por enquanto o meu olho esquerdo está salvo, saudável, mas costurado para ser protegido da radioterapia. O direito, infelizmente ficou afetado por uma estúpida alergia. Mas nesse tempo nas sombras, descubri muitas mais coisas que eu nunca descubri olhando.

Descubri o que significa depender completamente de alguem, não conseguir andar sozinha, não poder ler, não poder pegar coisas para mim mesma. Descubri o que significa confiar cegamente. 

Hoje que recuperei a visão no olho direito, pedi para o meu marido de me trazer em um lugar lindo. Fomos para o Mirante de Belo Horizonte. A beleza é a riqueza do mundo. Espero poder sempre vê-la.